Na minha família convivi com muitos relacionamentos que não deram certo e alguns poucos que deram. Minha avó casou-se com quinze anos e desconfio que tenha sido traída muitas vezes. Dizem que amava muito o meu avô. Com quatro filhos no colo, ficou viúva muito cedo. Casou-se mais tarde, mas eu sempre ouvi dizer que não foi por amor. Casaram-se, pois se sentiam só e um fazia companhia ao outro. O meu primeiro avô eu não conheci, comprei o que a minha avó vendeu e comprei a admiração que o meu pai trazia nos olhos pelas poucas lembranças que tinha. O meu avô de verdade, foi o segundo. Sei pela minha própria experiência que era uma pessoa incrível. Eu tinha por ele uma admiração estranha, uma espécie de afinidade ou simpatia que quando pequena não entendia como ele podia não ser o meu avô de verdade. A vida também me privou de sua companhia cedo. Não entendia direito a morte naquela época, mas sabia que sentir saudade de alguém que se ama é verdadeiramente a mais dilacerante das dores, seja esse o tipo de amor que for. Mas voltando a esse casamento “sem amor”, e pensando cá com os meus botões, questiono. Como é podiam, ele e a minha avó, dizer que não se casaram por amor? Não brigavam, não se odiavam. Eram companheiros e tinham grande respeito um pelo outro, dividiam a mesma casa e faziam muitas coisas juntos. Quando eu passava por lá nas minhas férias eles estavam sempre sorrindo, brincando e se divertindo comigo. Diabos! Se o que tinham um pelo outro não era amor? E se não era, o que era então?
Não conheci alguém na vida que tivesse mais manias do que o meu avô. O dia dele era cronometrado. Tinha hora até para ir ao banheiro se bobeasse, mas minha avó achava até engraçado e por mais que não concordasse nunca atrapalhou a sua minuciosa rotina, não só respeitava, como até se divertia com isso. Poucas vezes meu avô saiu da rotina. Saímos as 7 da manhã para ir a padaria. Ele encontrava meia dúzia de amigos já de idade avançada e ficávamos papeando até por volta das onze horas. Tudo que já tinham vivido no mundo era narrado com paixão. Falavam sobre a vida, seus feitos, sobre política e economia, tudo aquilo que dificilmente prenderiam a atenção de uma garotinha de oito anos, mas eu ficava ali, tomando sorvete e entretida na conversa do grupo de senhorzinhos. Ficava lá, besta, admirada. Meu avô de todos era o mais elegante. Saia de terno e perfumado todos os dias não importava aonde fosse. Tinha hora marcada até prá ser rebelde. Saindo da padaria íamos de carro até o limite do município vizinho. Minha avó sempre o proibia de ir até lá, mas essa era a sua rebeldia, pura e simplesmente pela diversão de cruzar o limite de municípios. Quando chegávamos ele dizia: Não vá contar a sua avó que fomos até aquele lugar ein? E minha avó já começava a brigar. No final da aventura, todos caíamos na gargalhada durante o almoço. Servido pontualmente ao meio-dia.
A casa da avó da gente é sempre o melhor lugar do mundo. E no meio daquela organização toda até poderia ser uma chatisse, mas não era. A casa da minha avó tinha tudo que a casa da avó da gente tem de bom. Eu era feliz ali, as minhas lembranças não poderiam ser mais felizes. Então me digam, como poderia ser aquela, uma família sem amor?
Portanto, se o que a sociedade chama e entende como amor se resume a uma desculpa para justificar pais que matam filhos por amor a uma religião, filhos que matam pais por dinheiro, cônjuges que se matam por ciúme, vidas infernais, relacionamentos destruídos, ressentimentos do passado ou qualquer outra coisa que justifique esse tal de amor pintado desta forma, gostaria então, humildemente de renunciar a este sentimento. Vamos parar com essa história de chamar de amor, sentimentos como orgulho, ciúme, inveja ou até maldade. Amor não pode ser. E eu prefiro excluir a tal palavra do meu contexto do que justificá-la em sua mais absoluta falta. Não importa que nome tenha, o importante é que respeito, carinho, amizade, compreensão e todas as outras podem até não significar amor, mas se não tiver, podem fazer uma falta danada na construção da palavra. Ô se faz.

2 comments
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Julho 14, 2009 às 8:31 am
Cafeína
tinha uma tia casada há 59 anos que me dizia que não sabia o que era esse amor da novela… a mãe dela ensinou que amor é dormir em paz… depois disso meu mantra virou “tudo que quero na vida é dormir em paz”… em todos os sentidos…
Julho 14, 2009 às 6:07 pm
kienaste
É, o amor que nos deixa dormir em paz, é sempre o melhor…o sufoco e o desespero estão mais ligados a paixão, que é do reino da loucura, mas que sabendo dosar um e outro e não atrapalhando a vida do outro, tá limpo…hhehe
Bjão